sábado, 3 de janeiro de 2015

O Ser do Silêncio



Se hoje tivesse eu a liberdade de dizer alguma coisa, me embriagaria do silêncio!
Onde pode habitar maior liberdade, senão num mundo sem dobras nem formas, arredio de todas as normas, vazio de sentido?
O sentido só bitola, aliena e controla aquilo que é livre!
Se dou-te um nome, já te possuo, se me põem um nome, já não me possuo mais...
Por isso calemo-nos...
Calemo-nos não por medo, por que o medo já dominou teu silêncio, a despeito de nominá-lo sensatez.
Calemo-nos não por respeito, cujo preço do regozijo, é o envenenamento do eu.
Nem tão pouco calemo-nos por objeção, estratagema político dos corpos aflitos.
Tudo em absoluto que dispomos, deseja falar em nosso nome.
Até mesmo estes silêncios jazem carregados de sobejos.
O silêncio a que vos falo, é o abdicar das heranças malogradas, é a plenitude do sentido, sua superação e seu além.
Se embriagar do silêncio é perder-se no sentido, alcançando a condição...
Embriagar-se do silêncio é não tornar-se silencioso, mas ser o próprio silêncio!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Insight




Nihil Insight...



Um estalo de niilismo adormecido...

Um espectro que ronda na surdina...

Um feixe de luz que oscila ...

Latente e luminescente nas mentes inquietas 

Daqueles cujo frescor da vida, 


tornou-se um regojizar de dúvidas...


Cujo sabor adocicado,


Agora tão amargo, lhe traga os dias. 


Esperando tão somente, incandescer-se 


E em sua alvorada findar-se...

As horas Nuas




...As horas nuas

Me revelam as nuanças do tempo

Suas curvas empoeiradas

Suas retilíneas gastas dos corpos que se arrastam

Seus becos escuros metamorfoseando-se em incertezas

E os rostos sem nome por onde passei

Desvelam o tempo perdido nas adornadas horas

Nas sufocadas horas

No tempo em que morri

No tempo em que morri antes mesmo de viver...

Filme: O Piano (1990)



The Piano (1990)
Quando a fitei na primeira cena, eu senti que ela queria dizer alguma coisa que minhas palavras não puderam desnudar, eram limitadas demais, sujas demais, gastas demais... Eu mesma me sinto muda, quando sufoco as iras, as incertezas, os medos, os nojos, eu me sinto muda, surda... Cega... Ela não precisou das palavras, já que seu corpo falava tão graciosamente, e minha pele em sinal de harmonia, arrepiava-se, ao ouvi-la.. Entendi seu desespero que gritava em seus olhos, olhando distante, bem mais longe do que o horizonte revelado naquele lugar à beira mar onde jaziam seus sussurros... Derretendo os olhos, o corpo trêmulo, a alma gritando quando faltaram as palavras.. As vezes adiamos a fala, sufocamos as palavras em nosso peito, comprimindo-as de nós mesmos... Emudecemos... Quando livres... Elas gritam, se antecipam, saem desorganizadas, como um gás à muito preso em um recipiente , nos esvaziamos de nós mesmos, prontos para nos preencher novamente de dores, alegrias, ilusões e amores... Lançamos as palavras gastas num profundo abismo, junto delas jazem nosso velho corpo, à procura de novas astúcias, desviantes e deficientes, de dar forma à misteriosa busca e fuga dos sentidos. 
Minhas imprecisas impressões de um olhar reto que se deixou perder...

Augusto dos Anjos




Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos.

Nostalgias...








Nostalgias...
Engraçado como palavras podem roubar-te de ti mesmo, e te deslocar arrebatadoramente para labirintos do âmago tão escondidos que lhe são estranhos... Trazendo entre os fios da memória até aquele cheiro de maça da infância, tão sinuosamente diferente, tão nostálgico, saudoso... Como se houvesse em nós uma outra vida, e um outro eu, tão distantes e destoantes, que se perguntamos de fato, em que momento deixamos de ser? E agora, quê somos? Diante de “jiboias abertas e fechadas”, lembro-me muito do Pequeno Príncipe, em conversas sobre a doce e poderosa ingenuidade, agora amarga a nossos paladares e tão cara a nosso coração... E da flor entre milhões e milhões de estrelas, triunfou os boabás. Confesso que queria um pouco dessa ingenuidade, dessa leveza, hoje tão caricaturada. Colocá-la sobre este pesar que me angustia, que me martiriza, que me apodrece... Esse pesar de ser adulto, é uma capa demasiada pesada. Meu corpo e minha mente se contradizem o tempo todo, e minha boca peca, por não querer mentir. Esta semana estou cansada de mim, sinto verdadeiramente, falta de encontrar-me em outras conversas. 

Passageiro Sombrio






AO PASSAGEIRO SOMBRIO

O dia vem vindo e junto dele, você acorda

Cravando tuas garras sobre meus ombros
E espreitando meu pavor pelo reflexo da tela 
Lendo meus temores e me oferecendo medo
As horas que passei te confundido, me confundiram
E enquanto me alimentava de fracas alegrias 
Carregava minha mente dos horrores da vida 
Das monstruosidades por trás dos risos
E dos rostos pálidos de máscaras
Ao me deitar tu me acompanha 
Meus olhos cerram pelo cansaço 
Cansaço em demasia por carrega-lo nos ombros 
Ano após ano, dia após dia, te arrasto comigo
E nestes últimos minutos como pesas em minhas costas
Agora tão parte de mim, 
Sou eu um monstro que já não se estranha no espelho
Penso que a morte traria o alívio
Mas tenho medo que mesmo lá eu te encontre em mim novamente