quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Insight




Nihil Insight...



Um estalo de niilismo adormecido...

Um espectro que ronda na surdina...

Um feixe de luz que oscila ...

Latente e luminescente nas mentes inquietas 

Daqueles cujo frescor da vida, 


tornou-se um regojizar de dúvidas...


Cujo sabor adocicado,


Agora tão amargo, lhe traga os dias. 


Esperando tão somente, incandescer-se 


E em sua alvorada findar-se...

As horas Nuas




...As horas nuas

Me revelam as nuanças do tempo

Suas curvas empoeiradas

Suas retilíneas gastas dos corpos que se arrastam

Seus becos escuros metamorfoseando-se em incertezas

E os rostos sem nome por onde passei

Desvelam o tempo perdido nas adornadas horas

Nas sufocadas horas

No tempo em que morri

No tempo em que morri antes mesmo de viver...

Filme: O Piano (1990)



The Piano (1990)
Quando a fitei na primeira cena, eu senti que ela queria dizer alguma coisa que minhas palavras não puderam desnudar, eram limitadas demais, sujas demais, gastas demais... Eu mesma me sinto muda, quando sufoco as iras, as incertezas, os medos, os nojos, eu me sinto muda, surda... Cega... Ela não precisou das palavras, já que seu corpo falava tão graciosamente, e minha pele em sinal de harmonia, arrepiava-se, ao ouvi-la.. Entendi seu desespero que gritava em seus olhos, olhando distante, bem mais longe do que o horizonte revelado naquele lugar à beira mar onde jaziam seus sussurros... Derretendo os olhos, o corpo trêmulo, a alma gritando quando faltaram as palavras.. As vezes adiamos a fala, sufocamos as palavras em nosso peito, comprimindo-as de nós mesmos... Emudecemos... Quando livres... Elas gritam, se antecipam, saem desorganizadas, como um gás à muito preso em um recipiente , nos esvaziamos de nós mesmos, prontos para nos preencher novamente de dores, alegrias, ilusões e amores... Lançamos as palavras gastas num profundo abismo, junto delas jazem nosso velho corpo, à procura de novas astúcias, desviantes e deficientes, de dar forma à misteriosa busca e fuga dos sentidos. 
Minhas imprecisas impressões de um olhar reto que se deixou perder...

Augusto dos Anjos




Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos.

Nostalgias...








Nostalgias...
Engraçado como palavras podem roubar-te de ti mesmo, e te deslocar arrebatadoramente para labirintos do âmago tão escondidos que lhe são estranhos... Trazendo entre os fios da memória até aquele cheiro de maça da infância, tão sinuosamente diferente, tão nostálgico, saudoso... Como se houvesse em nós uma outra vida, e um outro eu, tão distantes e destoantes, que se perguntamos de fato, em que momento deixamos de ser? E agora, quê somos? Diante de “jiboias abertas e fechadas”, lembro-me muito do Pequeno Príncipe, em conversas sobre a doce e poderosa ingenuidade, agora amarga a nossos paladares e tão cara a nosso coração... E da flor entre milhões e milhões de estrelas, triunfou os boabás. Confesso que queria um pouco dessa ingenuidade, dessa leveza, hoje tão caricaturada. Colocá-la sobre este pesar que me angustia, que me martiriza, que me apodrece... Esse pesar de ser adulto, é uma capa demasiada pesada. Meu corpo e minha mente se contradizem o tempo todo, e minha boca peca, por não querer mentir. Esta semana estou cansada de mim, sinto verdadeiramente, falta de encontrar-me em outras conversas. 

Passageiro Sombrio






AO PASSAGEIRO SOMBRIO

O dia vem vindo e junto dele, você acorda

Cravando tuas garras sobre meus ombros
E espreitando meu pavor pelo reflexo da tela 
Lendo meus temores e me oferecendo medo
As horas que passei te confundido, me confundiram
E enquanto me alimentava de fracas alegrias 
Carregava minha mente dos horrores da vida 
Das monstruosidades por trás dos risos
E dos rostos pálidos de máscaras
Ao me deitar tu me acompanha 
Meus olhos cerram pelo cansaço 
Cansaço em demasia por carrega-lo nos ombros 
Ano após ano, dia após dia, te arrasto comigo
E nestes últimos minutos como pesas em minhas costas
Agora tão parte de mim, 
Sou eu um monstro que já não se estranha no espelho
Penso que a morte traria o alívio
Mas tenho medo que mesmo lá eu te encontre em mim novamente

Ao Eu?








Ao Eu?

Eu te busquei
Nos empoeirados baús do que fui
E nos tortuosos labirintos do que serei

Eu te perdi
Nas lacunas das dúvidas
E nas tolas certezas

Onde o Eu está?
Porque foges de mim?

Como poderei Ser sem o Eu?
Só poderei ser o que sou...

E o que Eu sou?
Eu? Não sou nada...

A Arte dos Loucos



A arte dos loucos


Certa vez disse Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. A arte, longe de ser, um construto sobre-humano, torna-se fuga de um universo de sentidos que desejam apoderar-se do ser, roubá-lo de si mesmo. Afastando-se da verdade e das mentiras, perscrutou Nietzsche: Verdade de quem? Verdade pra quem? Não se satisfez com o que lhe foi ofertado, negou beber das velhas águas, apartando-se do lago. E a questionar o sol, também questionou ele a própria vida: o que haveria de ser se não houvesse quem vivê-la, e, sobretudo, quem deixá-la. O que seria da vida, se não fosse à morte. O que seria de nós, se não fosse à arte, para nós livrar da verdade cega. Não precisa ser você, um exímio pintor, o mais habilidoso escultor, ou o mais sensível dos poetas... Liberta-te desta verdade sobre a arte, e deixe-a correr livre entre teus dedos, teus lábios, teu corpo... Até o ato de ouvir uma música, sentindo-a correr pelos labirintos da tua mente, deixando-a aquiescer teus ânimos ou eleva-los, isso também é arte. Especialmente em nossos tempos onde tudo é tão mecânico e tão milimetricamente encaixado. À tudo, absolutamente tudo, antecipasse um guia da adequação e do polimento, do comer certo, dormir certo, ouvir certo, amar certo, odiar certo... Os “civilizados” nunca foram tão loucos, e os loucos nunca foram tão sãos. Sinto que a vida me sufoca, quer ela livrar-me deste peso, quer ela agraciar-me prematuramente com a morte?  Transvalorarei a vida, senão, parte dela tornar-lhe-ei arte, desvio, loucura... E a adornarei com meus ouvidos tortos e minhas palavras erradas. Um além vida, que me permita fugir, que me ofereça abrigo, que me consinta dançar como um louco ouvindo a canção dos ventos em noites frias, de pés descalços no chão molhado, apertando a areia úmida com a ponta dos dedos, rodopiando até perder os sentidos, todos os sentidos... É preciso, transvalorar a própria vida, já gasta pelo tempo... Como nós alerta Fernando de Andrade: Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


Era Uma Vez...

Era uma vez...

Era uma alma, que da dor da vida gritou ao nascer... Penso que queria voltar, ao aconchego do útero, ao acalento do silêncio, e a perfeição da solidão que lhe roubaram...
Tornou-se criança, e nem tuas doces lembranças de um tempo bom, lhe eram mais suas, a vida roubou... Não se lembra dos braços quentes maternos, das estórias de ninar, dos mimos... Do tempo em que ainda não era, e como era bom não ser.
Cresceu, e as palavras que aprendeu, ensinou-o a calar-lhe a mente... E disseram-lhe que isso era bom... E disseram-lhe que era o certo, aprisionar os monstros inquietos do espírito, pelas correntes da boa e velha educação moral... Aprisioná-lo para todo sempre nas masmorras do esquecimento, deixando-o perder-se nos labirintos da mente, nas caixas de pandora do ser... Sem nunca mata-lo de fato, os monstros aguardam o fraquejar para afrouxar os nós das forjadas certezas, pondo em dúvida o caminhar das luzes vespertinas, a noite torna-se labor das incertezas...
Ao acordar adulto, as correntes tornaram-se carne, confundindo-se com o próprio ser, calou-se o monstro, vigoroso ao meio dia, a essas horas se cansa de relutar... O pesar da vida o adoeceu... Tornando ele o pesar da vida, carregado pelo homem, que confunde a vida com ele mesmo.
Lascivo tempo roubou-lhe as forças, os sonhos, e o sopro da vida... Lhe restando  a sombra daquilo que um dia sonhou ser, sua única companhia, e os delírios das memórias enfraquecidas, de uma alma perdida no tempo, a faz sofrer por uma vida não vivida, saudosa infância perdida, pergunta no último suspiro: Onde será que está? Onde te perdi? Onde te encontrar?
E ao tardar as horas, a vida partiu e o tempo continua sorrindo...

Sim... Ele morreu... Como morre todas as vítimas que se contentam com a vida embrulhada, pronta, fria e acabada... Morreu sufocado... Sufocado com as palavras que nunca disse.