A arte dos loucos
Certa vez disse Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da
verdade”. A arte, longe de ser, um construto sobre-humano, torna-se fuga de um
universo de sentidos que desejam apoderar-se do ser, roubá-lo de si mesmo.
Afastando-se da verdade e das mentiras, perscrutou Nietzsche: Verdade de quem?
Verdade pra quem? Não se satisfez com o que lhe foi ofertado, negou beber das
velhas águas, apartando-se do lago. E a questionar o sol, também questionou ele
a própria vida: o que haveria de ser se não houvesse quem vivê-la, e,
sobretudo, quem deixá-la. O que seria da vida, se não fosse à morte. O que
seria de nós, se não fosse à arte, para nós livrar da verdade cega. Não precisa
ser você, um exímio pintor, o mais habilidoso escultor, ou o mais sensível dos poetas...
Liberta-te desta verdade sobre a arte, e deixe-a correr livre entre teus dedos,
teus lábios, teu corpo... Até o ato de ouvir uma música, sentindo-a correr
pelos labirintos da tua mente, deixando-a aquiescer teus ânimos ou eleva-los,
isso também é arte. Especialmente em nossos tempos onde tudo é tão mecânico e
tão milimetricamente encaixado. À tudo, absolutamente tudo, antecipasse um guia
da adequação e do polimento, do comer certo, dormir certo, ouvir certo, amar
certo, odiar certo... Os “civilizados” nunca foram tão loucos, e os loucos
nunca foram tão sãos. Sinto que a vida me sufoca, quer ela livrar-me deste
peso, quer ela agraciar-me prematuramente com a morte? Transvalorarei a vida, senão, parte dela
tornar-lhe-ei arte, desvio, loucura... E a adornarei com meus ouvidos tortos e
minhas palavras erradas. Um além vida, que me permita fugir, que me ofereça
abrigo, que me consinta dançar como um louco ouvindo a canção dos ventos em
noites frias, de pés descalços no chão molhado, apertando a areia úmida com a
ponta dos dedos, rodopiando até perder os sentidos, todos os sentidos... É
preciso, transvalorar a própria vida, já gasta pelo tempo... Como nós alerta
Fernando de Andrade: Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam
sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

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