quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Arte dos Loucos



A arte dos loucos


Certa vez disse Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. A arte, longe de ser, um construto sobre-humano, torna-se fuga de um universo de sentidos que desejam apoderar-se do ser, roubá-lo de si mesmo. Afastando-se da verdade e das mentiras, perscrutou Nietzsche: Verdade de quem? Verdade pra quem? Não se satisfez com o que lhe foi ofertado, negou beber das velhas águas, apartando-se do lago. E a questionar o sol, também questionou ele a própria vida: o que haveria de ser se não houvesse quem vivê-la, e, sobretudo, quem deixá-la. O que seria da vida, se não fosse à morte. O que seria de nós, se não fosse à arte, para nós livrar da verdade cega. Não precisa ser você, um exímio pintor, o mais habilidoso escultor, ou o mais sensível dos poetas... Liberta-te desta verdade sobre a arte, e deixe-a correr livre entre teus dedos, teus lábios, teu corpo... Até o ato de ouvir uma música, sentindo-a correr pelos labirintos da tua mente, deixando-a aquiescer teus ânimos ou eleva-los, isso também é arte. Especialmente em nossos tempos onde tudo é tão mecânico e tão milimetricamente encaixado. À tudo, absolutamente tudo, antecipasse um guia da adequação e do polimento, do comer certo, dormir certo, ouvir certo, amar certo, odiar certo... Os “civilizados” nunca foram tão loucos, e os loucos nunca foram tão sãos. Sinto que a vida me sufoca, quer ela livrar-me deste peso, quer ela agraciar-me prematuramente com a morte?  Transvalorarei a vida, senão, parte dela tornar-lhe-ei arte, desvio, loucura... E a adornarei com meus ouvidos tortos e minhas palavras erradas. Um além vida, que me permita fugir, que me ofereça abrigo, que me consinta dançar como um louco ouvindo a canção dos ventos em noites frias, de pés descalços no chão molhado, apertando a areia úmida com a ponta dos dedos, rodopiando até perder os sentidos, todos os sentidos... É preciso, transvalorar a própria vida, já gasta pelo tempo... Como nós alerta Fernando de Andrade: Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


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