quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Era Uma Vez...

Era uma vez...

Era uma alma, que da dor da vida gritou ao nascer... Penso que queria voltar, ao aconchego do útero, ao acalento do silêncio, e a perfeição da solidão que lhe roubaram...
Tornou-se criança, e nem tuas doces lembranças de um tempo bom, lhe eram mais suas, a vida roubou... Não se lembra dos braços quentes maternos, das estórias de ninar, dos mimos... Do tempo em que ainda não era, e como era bom não ser.
Cresceu, e as palavras que aprendeu, ensinou-o a calar-lhe a mente... E disseram-lhe que isso era bom... E disseram-lhe que era o certo, aprisionar os monstros inquietos do espírito, pelas correntes da boa e velha educação moral... Aprisioná-lo para todo sempre nas masmorras do esquecimento, deixando-o perder-se nos labirintos da mente, nas caixas de pandora do ser... Sem nunca mata-lo de fato, os monstros aguardam o fraquejar para afrouxar os nós das forjadas certezas, pondo em dúvida o caminhar das luzes vespertinas, a noite torna-se labor das incertezas...
Ao acordar adulto, as correntes tornaram-se carne, confundindo-se com o próprio ser, calou-se o monstro, vigoroso ao meio dia, a essas horas se cansa de relutar... O pesar da vida o adoeceu... Tornando ele o pesar da vida, carregado pelo homem, que confunde a vida com ele mesmo.
Lascivo tempo roubou-lhe as forças, os sonhos, e o sopro da vida... Lhe restando  a sombra daquilo que um dia sonhou ser, sua única companhia, e os delírios das memórias enfraquecidas, de uma alma perdida no tempo, a faz sofrer por uma vida não vivida, saudosa infância perdida, pergunta no último suspiro: Onde será que está? Onde te perdi? Onde te encontrar?
E ao tardar as horas, a vida partiu e o tempo continua sorrindo...

Sim... Ele morreu... Como morre todas as vítimas que se contentam com a vida embrulhada, pronta, fria e acabada... Morreu sufocado... Sufocado com as palavras que nunca disse. 

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