Era uma vez...
Era uma alma, que da dor da vida gritou ao nascer... Penso
que queria voltar, ao aconchego do útero, ao acalento do silêncio, e a
perfeição da solidão que lhe roubaram...
Tornou-se criança, e nem tuas doces lembranças de um tempo
bom, lhe eram mais suas, a vida roubou... Não se lembra dos braços quentes
maternos, das estórias de ninar, dos mimos... Do tempo em que ainda não era, e
como era bom não ser.
Cresceu, e as palavras que aprendeu, ensinou-o a calar-lhe a
mente... E disseram-lhe que isso era bom... E disseram-lhe que era o certo,
aprisionar os monstros inquietos do espírito, pelas correntes da boa e velha
educação moral... Aprisioná-lo para todo sempre nas masmorras do esquecimento, deixando-o
perder-se nos labirintos da mente, nas caixas de pandora do ser... Sem nunca mata-lo
de fato, os monstros aguardam o fraquejar para afrouxar os nós das forjadas
certezas, pondo em dúvida o caminhar das luzes vespertinas, a noite torna-se
labor das incertezas...
Ao acordar adulto, as correntes tornaram-se carne,
confundindo-se com o próprio ser, calou-se o monstro, vigoroso ao meio dia, a
essas horas se cansa de relutar... O pesar da vida o adoeceu... Tornando ele o
pesar da vida, carregado pelo homem, que confunde a vida com ele mesmo.
Lascivo tempo roubou-lhe as forças, os sonhos, e o sopro da vida...
Lhe restando a sombra daquilo que um dia
sonhou ser, sua única companhia, e os delírios das memórias enfraquecidas, de
uma alma perdida no tempo, a faz sofrer por uma vida não vivida, saudosa infância
perdida, pergunta no último suspiro: Onde será que está? Onde te perdi? Onde te
encontrar?
E ao tardar as horas, a vida partiu e o tempo continua
sorrindo...
Sim... Ele morreu... Como morre todas as vítimas que se
contentam com a vida embrulhada, pronta, fria e acabada... Morreu sufocado...
Sufocado com as palavras que nunca disse.
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